domingo, 1 de novembro de 2015

O que escorre.

Como posso segurar o que somente escorre?
Uma vida que só passa.
Suas decisões pouco importam.

Podemos ser além do tempo?
Além de um passado presente?

Analisando, apenas suporto.
Vivendo o momento das decisões passadas,
de alguém que muda a todo instante.

Fingindo querer tudo,
para perceber que não quero nada.
Sendo que a única certeza
é saber que não conseguimos segurar
o pingo de uma tempestade,
nem mesmo uma lágrima.

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Talvez o erro seja tentar segurar.
O instante não quer ser contido,
a lembrança não quer ser moldada,
e o futuro não nos deve promessas.

Corremos atrás de certezas como se fossem abrigo,
mas elas sempre escorrem pelas frestas do que somos.
A verdade muda de roupa a cada pensamento.
E mesmo aquilo que chamamos de identidade
é só uma sequência de tentativas de ser.

Queria poder voltar e refazer,
mas sei que o que me construiu também me despedaçou.
As escolhas não se apagam,
e o tempo, por mais que nos ensine,
não nos espera.

Fico preso entre querer sentir tudo intensamente
e desejar o alívio de não sentir mais nada.
Entre a coragem de tentar outra vez
e o silêncio confortável da desistência.
Quantas vezes já caminhei para longe de mim mesmo,
acreditando que estava indo na direção certa?

Será que há mesmo um rumo,
ou apenas a travessia?

Nos momentos mais calmos,
percebo que a vida é feita de coisas que se vão,
de palavras que não dissemos,
e de gestos que não voltam.
De vazios que não pediram permissão,
mas ficaram.

O mundo não é justo,
mas também não é cruel,
apenas segue indiferente.

E mesmo assim, aqui estou,
tentando dar sentido ao que talvez nunca tenha tido.
Tentando encontrar beleza
no fato de que tudo passa.
Talvez seja isso viver:
abraçar o instante com mãos vazias
e ainda assim sentir que valeu.