Estava apaixonado pela morte,
mas essa paixão me deixava confuso e com medo.
Conheço bem ela.
Atraente e sedutora,
chega como quem comanda toda a situação.
Vai entrando devagar,
sem pedir licença,
e roubando todos os seus espaços.
Primeiro o sono,
depois a alegria,
por fim, até o silêncio.
Fiquei estranho.
Passei a acreditar que não podia deixá-la.
Se o fizesse, ela me mataria.
E talvez fosse isso mesmo o que ela queria:
me fazer pensar que era a única companhia possível,
a única presença sincera em meio a todas as ausências.
Ela se disfarçava de alívio.
Me fazia crer que estar com ela era mais fácil
do que tentar seguir com o peso da vida.
Sussurrava que o fim era mais leve
do que a continuidade dos dias cinzentos.
E eu, enfraquecido, ouvia.
Sem forças para discordar,
sem coragem para resistir.
Mas, em algum lugar entre um pensamento sombrio e outro,
eu comecei a desconfiar dela.
A perceber que havia algo de mentiroso no seu toque suave.
Que o alívio prometido vinha com o preço de tudo o que ainda poderia ser.
Não foi uma luz que entrou.
Foi só uma dúvida.
E às vezes, uma dúvida basta para abrir uma fresta.
Comecei a me perguntar se era mesmo amor,
ou só o reflexo do cansaço.
Se o desejo era por ela,
ou por um fim qualquer, sem nome, sem forma.
Ela ainda está por perto.
Ela nunca vai embora completamente.
Mas hoje, sei que posso deixá-la esperando.
E talvez isso seja o começo de me escolher.
